O nome não é força de expressão: o recurso de ironing (engomar, em português) funciona quase como passar ferro numa roupa amassada. Depois de imprimir a última camada de uma superfície de topo, o bico volta a passar por cima, na mesma altura, com pouquíssimo material saindo, só pra amolecer e nivelar as linhas que ficaram marcadas. O resultado é uma superfície bem mais lisa, às vezes quase brilhante, no lugar do padrão de linhas paralelas normal de qualquer impressão FDM.
Como funciona, e por que só funciona em superfície plana
Durante o ironing, o bico permanece na mesma altura Z da última camada (não sobe) e passa repetidamente pela superfície com uma velocidade baixa e um fluxo de extrusão pequeno, relativo ao fluxo normal da camada. Esse pouco material extra escorre pra dentro das reentrâncias entre as linhas de impressão, preenchendo os vãos, enquanto o calor do bico amolece o plástico já depositado por cima.
Isso só funciona bem em superfícies de topo planas: como o bico sempre aponta pra baixo, o ironing só consegue atuar no topo do modelo, nunca nas laterais, e mesmo no topo ele depende de a área ser reta. Em superfícies curvas ou inclinadas, o ironing não consegue alisar a transição entre camadas e pode só aumentar o tempo de impressão sem melhorar o resultado. Pra esse tipo de superfície, o recurso que realmente ajuda é a camada variável, que reduz o efeito escada em curvas e inclinações usando camadas mais finas só onde precisa.
Vale a pena? Prós e contras
A favor: acabamento visivelmente mais liso e profissional, ótimo pra peças decorativas, placas e principalmente pra texto e logos em relevo sobre uma base plana (o mesmo tipo de peça do post sobre posicionar texto no eixo Z).
Contra: tempo de impressão. A velocidade do ironing é bem mais lenta que a impressão normal, e ironar uma área grande pode aumentar o tempo total da impressão entre 10% e 30%, dependendo do tamanho da superfície.
Contra: risco de entupimento. Como o ironing usa fluxo baixo e velocidade lenta por um tempo prolongado, existe uma chance real de creep térmico (acúmulo de calor que amolece o filamento antes da hora dentro do hot end), levando a entupimento, principalmente em materiais de temperatura de amolecimento baixa como PLA, PETG e TPU.
Contra: força extra na peça. O bico roça sobre o topo do modelo com mais força do que numa impressão normal. Se a peça não estiver bem grudada na mesa, esse atrito pode ser o suficiente pra descolar ela no meio do processo.
Bambu Studio (X1, P1, A1, H2D)
As configurações de ironing ficam todas juntas em Process > Quality > Ironing, com Advanced ativado. O recurso vem desativado por padrão.

Ironing Type: decide quais camadas recebem o tratamento. No ironing desativa; Top surfaces engoma todas as superfícies de topo do modelo (útil em peças com vários níveis de altura); Topmost surface engoma só a camada mais alta de todas; All solid layer engoma toda camada sólida, incluindo topo, base e preenchimento sólido interno, raramente vale a pena pelo tempo extra que consome.

Ironing Pattern: retilíneo (linhas paralelas) ou concêntrico (círculos seguindo o contorno da peça). O padrão concêntrico costuma disfarçar melhor uma eventual interrupção do processo de engomar no meio do caminho.
Ironing speed: velocidade do bico durante o engomar. Mais devagar geralmente dá um resultado mais liso.
Ironing flow: a quantidade de material extrudado, proporcional ao fluxo normal da camada. Fluxo baixo demais deixa falhas e o padrão de linhas ainda visível; fluxo alto demais causa over-extrusion e uma superfície áspera, quase arranhada.


Ironing line spacing: a distância entre as linhas do trajeto de engomar. Recomenda-se um valor menor que o diâmetro do bico, pra que a mesma área seja passada mais de uma vez.
Ironing inset: recuo, em milímetros, entre a área engomada e a borda da peça. Em textos e logos em relevo, sem esse recuo o material pode acumular nas bordas das letras; com o inset ativado, essa sobra de material some.

Ironing direction: o ângulo relativo entre as linhas do engomar e as linhas do preenchimento de topo (só ajustável com o Modo desenvolvedor ativado nas Preferências), geralmente 45° dá o melhor resultado.
Anycubic Slicer Next (baseado em Orca)
Mesma lógica do Bambu Studio, em Process > Global > Quality > Ironing (ou em Process > Object, pra configurar objeto por objeto na mesma mesa). Os quatro tipos são idênticos: No ironing, All top surfaces, Topmost surface only e All solid layers.
A documentação da Anycubic traz valores exatos de referência: fluxo padrão de 10% (faixa de 0% a 100%), espaçamento padrão de 0,15mm (faixa de 0,1mm a 1mm), e ângulo com valor -1 usando o padrão automático de 45°, ou um valor manual entre 0° e 359°. A própria Anycubic recomenda especificamente ativar o ironing em modelos com texto, exatamente o caso de placas e chaveiros com nome em relevo.
Orca-Flashforge (Adventurer 5M e compatíveis)
O Orca-Flashforge é construído sobre o mesmo OrcaSlicer do Bambu Studio e do Anycubic Slicer Next, e mantém o mesmo painel de Ironing, com os mesmos campos (Type, Pattern, speed, flow, line spacing, inset, direction). A documentação oficial da FlashForge não tem uma página dedicada a esse recurso, então vale usar o fluxo do Bambu Studio descrito acima como referência direta.
Creality Print (Ender, K1, Hi séries)
No Creality Print, baseado no Cura, o recurso fica disponível como o interruptor Enable ironing. Repare no preview de fatiamento como a versão com ironing ativado ganha um contorno extra fino (em vermelho) contornando a curva do topo, além do preenchimento em zigue-zague (amarelo) já presente nos dois casos.


Um alerta específico da documentação da Creality: se o processo de engomar for interrompido (por exemplo, porque o bico precisa pular pra outra seção da peça no meio do caminho), fica uma linha bem visível marcando onde o engomar parou e recomeçou. Trocar o padrão pra concêntrico costuma disfarçar melhor esse tipo de interrupção do que o padrão retilíneo.
Quando vale a pena usar
Vale muito a pena em: placas, chaveiros e letreiros com texto ou logo em relevo sobre uma base plana, peças decorativas com uma superfície de topo grande e reta, qualquer peça onde o acabamento visual da parte de cima importa mais que o tempo de impressão.
Não faz muita diferença em: superfícies curvas, esféricas ou muito inclinadas, onde o efeito escada continua aparecendo mesmo com o engomar ativado, e camada variável costuma resolver melhor.
Cuidado extra com: materiais de temperatura de amolecimento baixa (PLA, PETG, TPU), pelo risco de entupimento por creep térmico, e com peças que já têm pouca aderência na mesa, já que o atrito do bico pode descolar a peça no meio da impressão.